BRASÍLIA — A Bravo Grafeno, empresa de capacetes cujo dono é o senador Flávio Bolsonaro (PL), está registrada no mesmo endereço em Brasília que ao menos 16 empresas ligadas a Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. O ex-presidente Jair Bolsonaro, que já participou da sociedade, divulga a marca.
A sala compartilhada fica no número 2601 do bloco D do Edifício Connect Towers, em Águas Claras, região administrativa do Distrito Federal. O local também aparece ligado à Voga Serviços Contábeis, empresa pertencente a Alexandre Caetano dos Reis, sócio de Antunes e responsável pela contabilidade do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro.
A conexão ocorre no contexto das investigações sobre fraudes que, segundo a Polícia Federal, lesaram mais de 4,3 milhões de aposentados e pensionistas entre 2019 e 2024. O prejuízo informado aos cofres públicos foi de R$ 2 bilhões.
Contabilidade e empresas no mesmo endereço
A Voga ocupa quatro salas no 26º andar do prédio. A recepção fica na sala 2603. O advogado Thalles Setúbal confirmou que a empresa presta serviços à Bravo Grafeno, mas negou que a sala 2601 pertencesse à contabilidade. Funcionários, porém, orientaram que a recepção da Voga fosse procurada quando a porta da sala 2601 estava fechada.
Questionado sobre a relação da contabilidade com Flávio Bolsonaro e as investigações da Polícia Federal, Thalles respondeu: “A gente se posiciona nos autos, não com imprensa”.
A Bravo Grafeno foi aberta pela família Bolsonaro em junho de 2024, com capital social de R$ 100 mil. A empresa vende dois modelos de capacete por R$ 598,90 e viseiras branca e preta por R$ 54. O domínio do site foi registrado em julho de 2024 em nome de Flávio Bolsonaro.
Em vídeo divulgado no site, Jair Bolsonaro anuncia: “Com capacete Bravo de grafeno, você garante sua liberdade e segurança. Assim como eu, esse é 100% brasileiro”. Ele lançou o produto em 11 de março de 2025, no Salão das Motopeças, em São Paulo. O piloto Nelson Piquet também divulgou a marca em uma live em 2025.
Relações com investigados
Alexandre Caetano dos Reis está preso desde dezembro de 2025 e foi sócio de Antunes em uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. A Polícia Federal afirma que ele atuou como contador de empresas vinculadas ao Careca do INSS e teve acesso a planilhas, documentos e operações financeiras consideradas sensíveis pelos investigadores.
Letícia Caetano dos Reis, irmã de Alexandre, administra o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Ela disse, em entrevista à Agência Pública em 30 junho de 2022, que chegou ao escritório por indicação de Willer Tomaz, advogado e amigo do senador. Tomaz tem procuração para defender Alexandre na investigação sobre os desvios no INSS.
Carlos Bolsonaro também aparece como sócio da Bravo Grafeno. Entre os demais sócios estão Pedro Luiz Dias Leite, Paulo Giordano Bernardi e Fernando Nascimento Pessoa, ex-assessor de Flávio Bolsonaro. Os dois últimos e Carlos não responderam às tentativas de contato.
A sala 2601 também aparece no registro da Prospect Consultoria Empresarial. De acordo com o relatório final da CPMI, a empresa recebeu R$ 204,2 milhões de nove entidades investigadas, incluindo R$ 115,9 milhões da Unaspub, R$ 27,1 milhões da Ambec e R$ 19,8 milhões da CBPA.
O levantamento identificou que oito empresas ligadas a Antunes foram abertas no mesmo dia: 5 de outubro de 2023. Outra, a RPLD Construtora e Incorporadora, foi registrada um mês depois da Bravo Grafeno. As empresas atuavam em áreas como consultoria, construção, comércio, locação de veículos e call center.
Flávio Bolsonaro já negou envolvimento no escândalo do INSS. Ele e a defesa do Careca do INSS foram procurados, mas não haviam se manifestado até o fechamento da edição.






