SANTA BÁRBARA D'OESTE — O Romi-Isetta completa 70 anos neste mês como um marco da indústria automotiva brasileira. Embora tenha tido uma trajetória comercial curta, o modelo foi pioneiro na produção de carros de passeio em série no país e ajudou a formar capacidades industriais que seriam importantes para o setor.
Fabricado pela Romi, o compacto tinha uma única porta na parte dianteira e mais de 70% do peso composto por peças produzidas no Brasil. Antes dele, os carros eram importados ou montados no país com o sistema CKD, no qual as peças vinham do exterior e o veículo era montado localmente.
A fábrica que veio das máquinas agrícolas
A Romi produzia máquinas agrícolas no interior paulista antes de lançar o carro, em 1956. O projeto foi idealizado pelo paulista Américo Emílio Romi, dono da empresa, e contou com a atuação de seu enteado, Carlos Chiti, que conseguiu na Itália a autorização para a fabricação do modelo em Santa Bárbara d'Oeste.
Antonio Carlos Angolini, idealizador do arquivo da Fundação Romi, conta que Chiti conheceu o Isetta por meio de uma publicação e viajou à Itália para obter a autorização. A fabricação aproveitou a estrutura metalúrgica já existente na cidade, ligada à produção de tornos, fresadoras, implementos e máquinas.
Para o professor e pesquisador da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Mário Sacomano, a empresa já dominava tecnologias necessárias para produzir componentes metálicos complexos. A experiência com máquinas-ferramenta e implementos agrícolas também exigia trabalhadores qualificados e precisão mecânica.
“A Romi chegou primeiro porque já possuía capacidade industrial instalada”, afirmou Sacomano. Na avaliação do pesquisador, o legado do projeto inclui uma rede de fornecedores locais, mão de obra especializada e capacidade de nacionalizar e desenvolver componentes.
O reconhecimento oficial ficou com outro modelo
A consolidação da indústria automotiva brasileira ocorreu durante o governo de Juscelino Kubitschek, com o Plano de Metas e a criação do Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA). A política priorizou empresas com grande capacidade de investimento e direcionou a expansão do setor para o ABC Paulista.
O Romi-Isetta não recebeu oficialmente o título de primeiro carro nacional por não atender ao critério de duas portas e quatro lugares estabelecido pelo governo. O reconhecimento ficou com a DKW-Vemag Universal (Vemaguet), lançada dois meses depois e com 54% do peso em peças nacionais.
A marca DKW era estrangeira e fabricava no Brasil, sob licença, veículos desenvolvidos pela alemã Auto Union. Sacomano avalia que o debate também foi influenciado pela política industrial da época, voltada à atração de grandes montadoras internacionais.
Modelo preservado por colecionadores
O interesse pelo carro continua entre colecionadores. Flavio Fernandes encontrou um exemplar de 1957 em um galinheiro enquanto procurava, com a esposa, um veículo que lembrasse a história do automobilismo brasileiro.
Ele trabalha na restauração desde 2018 e diz que o carro está quase pronto. A família também encomendou uma réplica com motor elétrico e controle remoto para o neto.
Fernandes e a esposa participaram do Encontro de Romi-Isettas 2026, realizado no último dia 5 de setembro, na sede da Fundação Romi, em Santa Bárbara d'Oeste. A data marcou o aniversário de 70 anos do lançamento do modelo.
Um legado ligado ao futuro
Para Eugênio Guimarães Chiti, membro do Conselho da Fundação Romi, a produção do carro ocorreu em um período em que o Brasil ainda era bastante agrícola, mas começava a avançar no processo de industrialização.
Sacomano afirma que, apesar de a produção ter sido relativamente pequena, o modelo fortaleceu a cadeia metalúrgica, ampliou o emprego industrial qualificado e reforçou a identidade industrial de Santa Bárbara d'Oeste.
O professor também relaciona a história da Romi aos desafios atuais da indústria automotiva brasileira. Para ele, o país precisa equilibrar a atração de investimento estrangeiro com o fortalecimento das empresas nacionais.
O economista José Eduardo Roselino afirma que o setor passa por uma transformação ligada à descarbonização e à transição energética, com o avanço de veículos híbridos, híbridos plug-in, elétricos e outras tecnologias. Ele também aponta a importância de software, semicondutores e sistemas eletrônicos para a expansão das montadoras chinesas.







