As despesas financeiras de 268 empresas brasileiras listadas na B3 subiram 12,09% no segundo trimestre de 2026 e chegaram a R$ 99,4 bilhões. O levantamento foi realizado pela consultoria Elos Ayta e considera companhias de capital aberto, com exceção de empresas do setor financeiro, Petrobras e Casas Bahia.
O aumento representa R$ 10,7 bilhões a mais destinados ao pagamento e ao serviço de dívidas em relação ao mesmo trimestre de 2025. No período, a taxa Selic estava em 14% ao ano, enquanto a atividade econômica desacelerava.
O lucro líquido consolidado das empresas analisadas avançou 3,9%, de R$ 48,9 bilhões para R$ 50,8 bilhões na comparação anual. O ganho foi de R$ 1,9 bilhão, apesar de o lucro antes de juros e impostos ter crescido quase 25%, para R$ 123,9 bilhões.
Einar Rivero, CEO da Elos Ayta, afirmou que os gestores priorizaram a eficiência operacional e uma alocação mais rigorosa de capital, sem ampliar o endividamento. Ainda assim, o custo financeiro reduziu a parcela do resultado que chegou ao lucro líquido.
Casas Bahia e Petrobras ficaram fora da média
A Casas Bahia registrou prejuízo líquido contábil de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre. Desse total, R$ 9,1 bilhões corresponderam a lançamentos sem impacto direto no caixa, como impostos diferidos. Considerando os ajustes, o prejuízo foi de quase R$ 1 bilhão, uma alta de 76% em relação ao ano anterior.
A empresa fechou 298 lojas e entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas. Também havia outros R$ 11 bilhões em débitos com bancos, fundos e tributos. Na petição apresentada à Justiça, a varejista relacionou suas dificuldades ao ambiente de juros altos, à restrição de crédito e à redução do consumo e do capital de giro.
A Petrobras teve desempenho oposto e registrou lucro líquido de R$ 52,4 bilhões, alta de 96,8% ante o segundo trimestre do ano anterior. O resultado foi impulsionado pela elevação do preço do petróleo no mercado internacional em meio às tensões geopolíticas entre Estados Unidos e Irã.
Endividamento cria diferenças entre empresas
Um levantamento da XP com 135 companhias apontou redução da alavancagem média, medida pela relação entre dívida líquida e resultado operacional. O indicador caiu de 1,7 vez para 1,4 vez nos últimos quatro trimestres.
Mesmo assim, empresas mais endividadas continuaram enfrentando despesas financeiras elevadas. Na construção civil voltada à habitação popular e à média renda, Cury teve lucro de R$ 311 milhões, alta de 16,5%, e Direcional lucrou R$ 202 milhões, avanço de 9,7%. A MRV&CO, por outro lado, registrou prejuízo de R$ 626 milhões, pressionada por uma despesa financeira líquida de R$ 393,2 milhões, alta de 60% ante o mesmo período de 2025.
Entre os bancos, o Itaú teve lucro líquido recorrente de R$ 12,4 bilhões. O Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões após elevar a provisão contra perdas no crédito ao agronegócio. Nesse segmento, a inadimplência chegou a 6,3%, ante 3,18% no crédito para pessoas jurídicas da instituição.
Atividade econômica perde ritmo
O Produto Interno Bruto avançou 0,5% no segundo trimestre de 2026. De acordo com a XP, a perda de ritmo levou gestores a adotar posições defensivas, preservar o caixa e reduzir novos investimentos.
Os setores mais dependentes do consumo interno e com maior alavancagem, como varejo não alimentício e serviços básicos de energia, saneamento e utilidade pública, concentraram os piores resultados. As empresas de serviços tiveram alta de 2,5% no lucro líquido, enquanto saúde e educação registraram queda de 8,5%.
A consultoria MB Associados avaliou que a economia brasileira passa por um período de perda de tração associado ao peso da Selic e ao esgotamento dos estímulos fiscais. Sergio Vale, economista-chefe da consultoria, afirmou que a taxa real de juros permaneceu entre 7% e 10% ao ano nos últimos três anos e projetou crescimento de 1,8% do PIB em 2026, abaixo da estimativa inicial de 2%.








