Augusto Cury, candidato à Presidência pelo Avante, chegou ao terceiro lugar em pesquisas de intenção de voto e passou a superar os ex-governadores Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem à frente.
A Quaest registrou 10% das intenções de voto para Cury. Na pesquisa BTG/Nexus, ele marcou 11%, avanço de nove pontos em uma semana. O Datafolha também apontou crescimento, mas em ritmo menor.
A mudança ocorreu depois de Cury ampliar sua exposição pública, com participação em debate e sabatina. A principal aposta da campanha, porém, está nas redes sociais. Ele soma 10,7 milhões de seguidores no Instagram, próximo dos 11,4 milhões de Flávio Bolsonaro.
Dados da plataforma Palver mostram que as menções ao candidato passaram de 2.309 em julho para 27.678 em agosto. Entre os dias 23 e 31, foram 24.046 citações, o equivalente a 87% do total do mês.
Campanha tenta se apresentar como alternativa
A campanha afirma que o crescimento é orgânico. Um estrategista eleitoral ouvido sob anonimato avaliou que a alta é desproporcional à audiência do debate, estimada em cerca de dois pontos. Também houve especulação sobre o uso de robôs e o financiamento irregular de influenciadores, práticas proibidas.
Cury ganhou mais de 2,5 milhões de seguidores em uma semana e teve alta nas buscas do Google depois do debate. Antes da candidatura, entre 2018 e 2020, foi sócio de Leandro Aguiari na Academia de Gestão da Emoção, plataforma de cursos baseada nas teorias do escritor.
A estratégia eleitoral tenta afastá-lo das disputas tradicionais entre direita e esquerda. O marqueteiro Leandro Grôppo, que participou das duas campanhas de Romeu Zema ao governo de Minas Gerais, apresentou a avaliação de que mais da metade da população não se interessa pelas brigas entre os campos políticos. A partir disso, Cury adotou a ideia de uma candidatura voltada à pacificação.
O candidato é casado com Suleima Cury há 43 anos e tem três filhas: Camila, Carol e Claudia. Camila, a mais velha, disse ter tentado convencê-lo a desistir. Cury respondeu: “Filha, está na minha hora”.
O vice da chapa, Júlio Delgado, define Cury como um outsider que não dependeria do dinheiro da política. Mesmo buscando essa imagem, o candidato já participou de atividades comuns de campanhas, como gravações comendo pastel, visitas a escolas e igrejas, podcasts e uma visita à Rocinha, no Rio de Janeiro.
Cury também esteve na sede da Assembleia de Deus, em São Paulo, para uma reunião fechada com o pastor José Wellington Costa Junior. Ele declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de R$ 242 milhões, o maior entre os candidatos à Presidência.
Propostas do candidato
Escritor e psiquiatra, Cury afirma ter estudado a mente humana, a formação dos pensamentos e os processos inconscientes das emoções. Seu programa de governo cita mais de 30 vezes a teoria da Gestão da Emoção, desenvolvida por ele.
Na economia, promete buscar déficit fiscal próximo de zero, controlar despesas, reduzir gradualmente a dívida pública e criar 10 milhões de novos empreendedores. O plano não detalha como essas metas seriam alcançadas.
Na saúde, defende a expansão da telemedicina e a criação do Programa Nacional de Saúde Mental. Para a segurança, propõe recriar o Ministério da Segurança Pública e adotar lista tríplice para escolher o delegado-geral da Polícia Federal.
Para o Supremo Tribunal Federal, Cury defende mandato de oito anos, idade mínima de 50 anos e redução das atuais 11 cadeiras para 9, com ao menos 3 mulheres. Também propõe ampliar o uso de inteligência artificial em áreas como segurança e combate à corrupção.
Questionamentos sobre a teoria da Gestão da Emoção
A psiquiatra Elisa Brietzke, professora da Queen's University, no Canadá, critica a falta de base científica para tratar a chamada síndrome do pensamento acelerado como uma síndrome independente. O conceito não aparece na classificação de doenças da OMS nem no manual de diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria.
Segundo Brietzke, sintomas associados à teoria podem ter causas distintas, como apneia do sono, depressão, hipotireoidismo, TDAH, ansiedade e transtorno bipolar. Ela alerta que explicações simplificadas podem atrasar a identificação correta de problemas de saúde.
Patrimônio e negócios
Além dos livros de autoajuda, Cury tem negócios ligados ao agronegócio. Na declaração entregue à Justiça Eleitoral, informou 17 fazendas, dois apartamentos, três prédios, investimentos e participações em empresas.
Ele detém 99,97% da Filadélfia Nature, holding ligada a plantações e outras atividades rurais. Em uma propriedade associada à empresa, a Fazenda Serra Branca, em Prata, Minas Gerais, um trabalhador morreu em fevereiro de 2024 durante a extração de um produto.
A companheira do trabalhador alegou na Justiça do Trabalho que ele era empregado rural, embora tratado formalmente como parceiro, e que não tinha registro em carteira. Cury negou ter contratado o homem ou se beneficiado diretamente do trabalho. A Filadélfia afirmou que havia cedido parte da fazenda à Hevea-Minas e que cabia à empresa contratada fazer acordos com terceiros.
O processo terminou em acordo de R$ 100 mil, sem decisão sobre o vínculo trabalhista ou as demais alegações. Cury e a Filadélfia foram excluídos da ação e não participaram do pagamento.
Em 2013, o escritor fundou com Maria Isabel Garcia Castro a Faculdades Brasil Inteligente, em Belém, hoje Faculdade Cosmopolita. A sociedade durou menos de dois meses. Cury vendeu suas 1,5 milhão de quotas por R$ 1,5 milhão, mas entrou na Justiça em 2018 porque não recebeu o valor no prazo. A cobrança chegava a R$ 3,41 milhões em maio de 2021. Parte da dívida foi recuperada por bloqueios judiciais, mas o débito não foi totalmente quitado.







