BOULDER — Jim Collins não apresentou respostas prontas à liderança do iFood. Durante dois dias, fez perguntas até às cinco da tarde, enquanto os executivos continuaram discutindo as respostas até onze da noite. Para Diego Barreto, CEO da empresa, a experiência mostrou como disciplina, curiosidade e presença podem mudar a forma de pensar decisões e trajetórias.
Collins recebe empresas de uma maneira específica: a liderança precisa viajar até seu laboratório, em Boulder, no Colorado, para passar dias respondendo a perguntas. Antes do iFood, Jorge Paulo Lemann e seu time, além de Abilio Diniz e sua equipe, haviam feito o mesmo.
Curiosidade como ponto de partida
O interesse de Collins pelo iFood começou com uma pergunta sobre o Brasil. O pesquisador viu na empresa o potencial de ajudar a levar o país a outro patamar. Foi essa possibilidade que abriu a porta do laboratório, e não uma tentativa de convencê-lo feita pela companhia.
Collins afirma que a curiosidade está no topo de seu flywheel pessoal e só termina quando ele parar de respirar. Ao longo do encontro, Barreto percebeu que o pesquisador usava perguntas para obrigar o grupo a construir as próprias conclusões. “Sou completamente socrático”, disse Collins.
Na parede da sala, uma frase resume uma de suas ideias: “grandeza não é fruto das circunstâncias. Grandeza é uma questão de escolha consciente e de disciplina.” Barreto havia lido a mensagem pela primeira vez quase vinte anos antes, em um livro que influenciou sua maneira de pensar.
Disciplina acompanhada de perto
Collins também mede a própria rotina. Dois cartazes na sala mostravam as horas criativas dos últimos 365 dias e o placar dos últimos cinco anos: 88% de dias líquidos positivos. Ele carrega um cronômetro de três marcadores, acionado a cada troca de atividade, para alimentar a planilha que acompanha sua regra de dedicar metade dos dias úteis ao trabalho criativo.
A disciplina aparece ainda em uma experiência pessoal. Como presente de 50 anos para si mesmo, Collins estudou um século de padrões climáticos de Yosemite e escalou o paredão El Capitán em 19 horas.
Para Barreto, a convivência também revelou um pesquisador bem-humorado. Quando alguém travou durante uma explicação, Collins afirmou que às vezes se fazia de bobo para estimular o raciocínio dos outros — e às vezes era bobo mesmo. A brincadeira abriu espaço para uma discussão mais profunda.
O valor de não tratar tudo como rotina
Barreto, aos 43 anos e à frente de uma empresa que atende dezenas de milhões de brasileiros, contou que sentiu frio na barriga ao se sentar diante de Collins. Em vez de esconder a reação, passou a entendê-la como parte importante da experiência.
Na visão dele, conhecimento pode ser obtido nos livros, enquanto sabedoria depende da presença e de uma vida dedicada a colocar esse conhecimento em prática. Durante a visita, Collins contou conversas com Steve Jobs sobre o interior dos computadores, falou da Amazon em 2001 e do desafio deixado a Jeff Bezos e sua equipe, além de mencionar diálogos com Reed Hastings sobre o futuro da Netflix depois dos primeiros 100 milhões de assinantes.
Outro momento marcante ocorreu no aniversário de Flávio Stecca, sócio e CTO do iFood. Collins perguntou sua idade: quarenta e sete. Depois, citou biografias de Benjamin Franklin para dizer que mais da metade da trajetória ainda poderia estar pela frente. Stecca estaria a treze anos de terminar o aquecimento.
No encerramento, Collins apresentou Tuesday, o gato vermelho que vive no laboratório. O nome representa a ideia de que todos os dias deveriam ser comuns, bons e bem vividos. O grupo deixou com ele Johnny, o elefante de pelúcia que simboliza o iFood e o compromisso de nomear o elefante na sala. Johnny ficou em Boulder, sobre a cabeça de Tuesday.








