Treze mulheres indígenas de diferentes povos da Amazônia encerraram o TEDxAmazônia, realizado no Equador, com um manifesto em defesa dos seus corpos e territórios. O grupo reivindicou protagonismo para as comunidades que vivem na floresta e cobrou proteção para quem atua na defesa da natureza.
O encontro ocorreu nas cidades de Banos e Puyos, na área de transição entre os Andes e a Amazônia. Foi a primeira edição do evento fora do Brasil. A anciã do povo Shuar Catalina Chumpi pediu às águas das cachoeiras que dessem força às suas “netas” para defender seus territórios.
A abertura teve um minuto de silêncio, proposto pelo líder Shuar Domingos Peas, em homenagem às defensoras e aos defensores da natureza assassinados por causa do trabalho que realizavam. O relatório mais recente da organização Global Witness aponta a América Latina como o continente onde mais são mortos defensores ambientais. Os líderes indígenas estão entre os mais atingidos.
Direitos da natureza
Durante as apresentações, lideranças defenderam que a natureza seja reconhecida como sujeito de direitos, e não apenas como fonte de recursos. A líder Kichwa Patricia Gualinga chamou essa visão de “selva viva”, com memória, alma e direitos próprios.
Patricia afirmou que os povos indígenas entendem que não são os únicos habitantes do planeta. Segundo ela, essa relação ajuda a explicar por que os territórios indígenas estão entre os lugares mais bem cuidados.
Ela também citou o Equador, que em 2008 se tornou o primeiro país a estabelecer em sua Constituição que a natureza tem direitos equivalentes aos das pessoas. Em 2024, esse entendimento foi aplicado para proibir a mineração na Floresta Los Cedros, sob o argumento de que a atividade violaria os direitos da natureza do local.
A líder mencionou ainda o reconhecimento dos direitos do Rio Atrato, na Colômbia, e do Rio Maranhão, no Peru. Para ela, o próximo passo é reconhecer territórios inteiros, e não apenas rios ou florestas isoladas.
A garantia legal, porém, não seria suficiente. Patricia defendeu políticas públicas, mudanças na economia global e instituições firmes para aplicar esses direitos e recuperar áreas degradadas.
Recursos e participação
Diana Chavez, diretora de Comunas, Povos e Nacionalidades do Fundo do Biocorredor Amazônico, pediu que os povos indígenas tenham acesso direto aos recursos e poder para decidir como eles serão usados.
Ela citou um fundo do Equador abastecido com recursos da mineração e do petróleo. Criado há seis anos, o mecanismo ainda não permite que os povos indígenas acessem os recursos diretamente, segundo Diana. Entre os obstáculos apontados estão a burocracia, os requisitos excessivos e as mudanças na administração e nas normas.
Diana afirmou que menos de 1% do financiamento global para ações de controle do clima chega diretamente aos povos indígenas. Para ela, a participação não pode se limitar a consultas e reuniões. As comunidades precisam estar nas decisões sobre a aplicação do dinheiro.
Patricia também disse que os povos indígenas protegem a Amazônia mesmo sem recursos. Ela afirmou que as comunidades não são beneficiárias passivas da conservação, mas responsáveis pela construção desse trabalho.
Guayusa como alternativa
A administradora Esthela Noteno, de origem Kichwa, apresentou uma experiência de geração de renda ligada à conservação. Ela contou que cresceu em uma comunidade do distrito de Sucumbíos, onde a riqueza natural diminuiu com a contaminação causada principalmente pela atividade petroleira.
Sem acesso a serviços básicos e em situação de pobreza, moradores arrendaram suas terras para empresas agrícolas que produziam taro, um tubérculo estrangeiro da família do inhame. Esthela afirmou que a decisão ocorreu por falta de alternativas para alimentar os filhos, e não por rejeição ao território.
Durante a pandemia de covid-19, a família passou a valorizar a guayusa, planta nativa da Amazônia consumida como chá em várias regiões do Equador. Os encontros chamados de “guayusadas” reuniam idosos, que compartilhavam ensinamentos e sonhos relacionados à terra.
A iniciativa deu origem a uma agroindústria comunitária de extrato de guayusa, que atualmente emprega 12 famílias. A produção passou de 150 garrafas para de 3 a 5 mil garrafas por mês.
As folhas são compradas de outras mulheres indígenas, que cultivam a planta em sistemas agroflorestais com mais de 150 espécies nativas. Para Esthela, a existência de um mercado justo cria um incentivo para que essas produtoras mantenham a floresta em pé.
Próximas edições
A coorganizadora Verônica Reed afirmou que 40% do território amazônico está em oito países fora do Brasil. O evento reuniu 30 palestrantes indígenas e não indígenas envolvidos com a conservação ou a pesquisa sobre a Amazônia.
O organizador Rodrigo Cunha definiu a mensagem do encontro como um alerta sobre a emissão de carbono, a violência contra indígenas e o risco de chegar a um ponto de não retorno.
A organização pretende manter o revezamento entre países. Em junho do ano que vem, o evento será realizado em Belém, no Pará. Em 2028, a expectativa é que volte ao Equador.








