São Bernardo do Campo, Segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Brasil

Emae e Sabesp conectam Banco Master a negócios do governo Tarcísio

Investigações e representações questionam a relação entre o grupo de Nelson Tanure, o Banco Master e as privatizações paulistas.

Entenda ponto a ponto a relação entre a privatização da Sabesp pelo governo Tarcísio e o Banco Master

A privatização da Sabesp e a venda da Emae aproximaram o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) de nomes ligados ao Banco Master, segundo investigações e representações apresentadas a órgãos públicos. A relação envolve Nelson Tanure, apontado como sócio oculto do banco, o empresário Fabiano Zettel e executivos que passaram por empresas participantes dos negócios.

Nas eleições de 2022, Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, doou R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio. O vínculo voltou a ser questionado após a criação do Fundo Phoenix, no início de 2024.

O fundo tinha Tanure como beneficiário final e era administrado pela Trustee DTVM, distribuidora de títulos e valores mobiliários ligada ao Banco Master. O capital do Phoenix era sustentado por ações da Ambipar, empresa cujo presidente do conselho era Carlos Piani, hoje presidente da Sabesp.

Compra da Emae e valorização da Ambipar

Em abril de 2024, o Fundo Phoenix venceu o leilão da Emae por R$ 1,04 bilhão. A empresa administra a elevação da água do Rio Pinheiros e possui usinas hidrelétricas no interior do estado.

As ações da Ambipar, usadas como garantia para a operação, tiveram valorização de mais de 700% entre abril e outubro de 2024. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) passou a investigar se fundos ligados ao Banco Master e a Tanure atuaram para elevar artificialmente o valor da companhia.

O Fundo Phoenix levantou recursos por meio de debêntures e de um empréstimo da XP Investimentos. Depois da compra, o caixa da Emae foi usado para adquirir debêntures da Light e CDBs do Banco Master. A Light pertence ao mesmo grupo econômico mencionado no caso.

Em janeiro de 2025, com Tanure na presidência do Conselho de Administração da Emae, a empresa comprou R$ 160 milhões em CDBs do Letsbank, também ligado ao conglomerado do Banco Master.

Em maio, a CVM levantou a hipótese de que a valorização da Ambipar teria sido usada para favorecer a aquisição da Emae. O documento citou Tércio Borlenghi, controlador da Ambipar, mas não mencionou Piani. Em outubro de 2025, Tanure deixou de pagar o empréstimo tomado com a XP. O banco executou a dívida e assumiu o controle da Emae.

Depois, a Sabesp comprou a Emae do Fundo Phoenix, durante a gestão de Piani.

Negociações pela Sabesp

Em junho de 2024, Tanure e integrantes do Banco Master procuraram o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para discutir um empréstimo destinado à compra da Sabesp. Participaram das reuniões Tanure, Reinaldo Hossepian, diretor do Banco Master, e Karla Maciel, então assessora da área de fusões e aquisições da instituição.

Maciel havia comandado essa área durante as negociações envolvendo a Emae. Em outubro, tornou-se CEO da empresa e permaneceu no cargo até dezembro de 2025. Durante sua gestão, a Emae facilitou a compra de dívidas da Light.

Em julho de 2024, a Equatorial Energia ficou com 15% das ações da Sabesp e venceu o processo de desestatização como única concorrente. Naquele período, Piani presidia o conselho da Equatorial.

A operação levantou questionamentos sobre o preço e a concorrência. A venda de 15% das ações por R$ 6,9 bilhões permitiu o controle estratégico da companhia, que tinha lucros na ordem de R$ 56,2 bilhões. No total, foram captados aproximadamente R$ 15 bilhões. Em 13 de fevereiro de 2026, as ações da Sabesp chegaram a R$ 152,50, valorização de aproximadamente 127% em relação ao preço de venda.

Karla Bertocco também foi citada nas representações. Ela presidiu o Conselho de Administração da Sabesp antes de integrar o conselho da Equatorial, única interessada na compra da companhia. Bertocco foi subsecretária de Parcerias e Inovação do Governo de São Paulo entre 2015 e 2018, presidente da Sabesp até 2018 e diretora do BNDES até 2019. Até dezembro de 2023, ocupou uma cadeira no conselho da Equatorial.

Em julho de 2024, a federação PT-PCdoB-PV na Assembleia Legislativa de São Paulo encaminhou ao Ministério Público de São Paulo um pedido de apuração sobre possível conflito de interesses e dano ao interesse público. O documento, assinado pelo deputado estadual Paulo Fiorilo (PT), afirmou que Bertocco participou de reuniões que trataram de pontos importantes da privatização.

Pedidos de investigação

Em março deste ano, o deputado estadual Antonio Donato (PT-SP) apresentou representação ao Ministério Público de São Paulo. O pedido questiona o conhecimento do governo sobre a valorização das ações da Ambipar, a fiscalização do leilão da Emae, o formato do leilão da Sabesp, o preço das ações e a recompra da Emae pela Sabesp.

O documento aponta que poderia haver prejuízo ao patrimônio público caso fossem comprovadas decisões com dolo ou culpa grave, como a venda de ativos abaixo do valor de mercado ou a compra de ativos inflacionados. Também cita possíveis conflitos envolvendo Piani e Bertocco e eventual influência da doação feita por Zettel.

O pedido ainda está em análise no Ministério Público e não tinha andamento até a publicação das informações.

No início de abril, o Supremo Tribunal Federal rejeitou duas ações que buscavam suspender a privatização da Sabesp. Uma delas questionava a lei municipal que autorizou contratos de abastecimento de água e esgotamento sanitário e o cronograma de desestatização. A outra contestava a lei estadual que autorizou a venda de participação societária da companhia.

Respostas

A Sabesp afirmou que a compra da Emae foi aprovada pelo Conselho de Administração e analisada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica e pela Agência Nacional de Energia Elétrica. A empresa negou relação entre Piani e o Fundo Phoenix e disse que ele deixou o conselho da Ambipar antes de assumir a presidência da Sabesp, em outubro de 2024.

A companhia também afirmou que não houve conflito de interesses relacionado a Bertocco. Sobre as operações financeiras da Emae, declarou que os dados podem ser consultados nas demonstrações financeiras auditadas e nos sistemas da CVM, da B3 e da própria empresa.

A Emae informou que, em 3 de dezembro de 2025, o juiz Fausto Dalmaschio Ferreira julgou improcedente uma ação popular que questionava a venda de ações para a Equatorial e descartou irregularidade ou conflito de interesses na atuação de Bertocco.

A Secretaria de Parcerias em Investimentos disse que os processos da Sabesp e da Emae seguiram critérios técnicos, consulta pública, audiências e as etapas previstas no Programa de Parcerias em Investimentos. Sobre a Sabesp, mencionou quase mil contribuições da sociedade. A pasta afirmou ainda que o leilão da Emae teve proposta vencedora 33,68% acima do preço mínimo do edital e passou pelos órgãos reguladores competentes.

A secretaria acrescentou que eventuais apurações sobre o mercado de capitais cabem à CVM e reafirmou o compromisso do governo paulista com a lisura dos processos.

Texto produzido pela Redação Finanças em Pauta com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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