O governo federal avalia assumir conjuntos de dívidas de famílias de menor renda para quitar os débitos com desconto. A proposta ainda está em fase inicial e não tem definição sobre custo, beneficiários ou modalidades de dívida.
A ideia foi apresentada pelo ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, em entrevista nesta sexta-feira (18). Pelo modelo em discussão, instituições interessadas venderiam carteiras de créditos ao poder público e ofereceriam um deságio sobre o valor dos contratos.
“Isso mesmo”, respondeu Moretti ao ser questionado se a iniciativa usaria o poder de compra do Estado para negociar dívidas em grande escala.
Como a compra poderia funcionar
Em vez de tratar cada contrato separadamente, o governo compraria lotes de dívidas por um valor abaixo do saldo nominal. Os débitos selecionados seriam então liquidados para as famílias incluídas no programa.
Ainda não está definido se a medida alcançaria somente bancos e outras instituições financeiras ou também empresas de varejo e demais credores. A faixa de renda dos possíveis beneficiários e os tipos de dívida que poderiam participar também continuam em análise.
Moretti disse que a equipe econômica ainda precisa fechar os parâmetros técnicos antes de levar uma proposta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O ministro afirmou que o governo ainda não tem “maturidade para apresentar a proposta”.
Diferença em relação ao Desenrola
A possibilidade estudada não seria igual ao modelo adotado na primeira versão do Desenrola Brasil, lançada em 2023. Naquele programa, os credores ofereciam descontos em leilões, e os contratos selecionados podiam ser renegociados com garantia do Fundo de Garantia de Operações (FGO). A União não comprava diretamente as carteiras para extinguir as dívidas.
De acordo com o Ministério da Fazenda, a primeira edição ajudou mais de 15 milhões de pessoas a sair da inadimplência e movimentou R$ 53,2 bilhões em renegociações. Na plataforma voltada à população de menor renda, os descontos médios foram de 90% nos pagamentos à vista e de cerca de 85% nos parcelamentos.
O Novo Desenrola Brasil, lançado em maio deste ano, atende pessoas com renda de até cinco salários mínimos. Entre as dívidas incluídas estão cartão de crédito rotativo, cheque especial e crédito pessoal sem consignação. O programa oferece descontos de até 90%, juros de até 1,99% ao mês e parcelamento de até 48 meses, além do uso de recursos do FGTS nas condições previstas pelas normas.
Endividamento e juros
Dados do Banco Central mostram que o endividamento das famílias alcançou 49,8% em junho de 2026, com aumento de 1 ponto percentual em 12 meses. No mesmo intervalo, a parcela da renda comprometida com dívidas subiu 1,7 ponto percentual e chegou a 28,9%.
Em julho, 5,8% da carteira de crédito para famílias tinha atrasos superiores a 90 dias. Nas operações com recursos livres para pessoas físicas, o índice foi de 7,8%. A taxa média de juros das novas operações de crédito livre para pessoas físicas estava em 60% ao ano.
Moretti também defendeu juros menores como parte de uma solução estrutural. O Banco Central reduziu na quarta-feira (16) a meta da Selic de 14% para 13,75% ao ano, mantendo o ciclo de cortes iniciado em 2026.
O ministro ainda associou o endividamento aos efeitos das apostas on-line. Segundo ele, pessoas com comportamento problemático relacionado ao jogo podem recorrer a empréstimos ou aumentar dívidas no cartão de crédito.
Desde 2026, beneficiários do Novo Desenrola Brasil estão entre os impedidos de participar de apostas de quota fixa em plataformas autorizadas. A restrição também alcança beneficiários do Bolsa Família, do BPC e de outros programas abrangidos pelas regras. Em agosto, o Ministério da Fazenda informou que o bloqueio já havia impedido o acesso de mais de 3 milhões de pessoas.
O Ministério da Saúde lançou, em julho, uma campanha nacional de prevenção aos danos das apostas on-line. Sobre a compra das carteiras, ainda não há anúncio formal, fonte orçamentária, montante de recursos ou estimativa de beneficiários.








