A chegada da gasolina E35 aos postos ainda não tem data definida. A mistura, autorizada pelo Ministério de Minas e Energia para a fase de testes, terá 35% de etanol anidro, contra 32% no combustível vendido atualmente no Brasil.
O principal ponto de atenção está nos critérios usados para avaliar a qualidade da gasolina. Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), afirma que a elevação do etanol precisa ser acompanhada de mudanças nos parâmetros de octanagem mínima e massa específica.
Sem essa revisão, misturas com gasolinas baratas e de baixa qualidade, solventes, naftas impróprias e etanol poderiam atender às especificações atuais. A adulteração também poderia passar pelo teste da proveta realizado nos postos, mas seria identificada em uma análise laboratorial mais detalhada.
“Não mexer na especificação pode também facilitar a fraude com adulteração com solventes ou naftas de baixa qualidade”, disse Gonçalves.
Os parâmetros avaliados
A octanagem, conhecida como RON (Research Octane Number), mede a resistência do combustível à detonação durante a queima no motor. Um índice maior permite que a gasolina seja comprimida em condições mais favoráveis, o que pode melhorar a eficiência e a economia do veículo.
A especificação da gasolina comum passou de RON 93 para 94, conforme a Resolução nº 988/2025 da Agência Nacional do Petróleo (ANP), publicada em setembro do ano passado. A mesma regra estabeleceu a massa específica mínima em 688,9 kg/m³.
A massa específica relaciona a massa ao volume do combustível e funciona como um indicador de composição, pureza, densidade e rendimento energético. Valores fora do padrão legal podem ajudar a apontar a presença de solventes inadequados ou água.
Gonçalves também afirma que o aumento da octanagem pode compensar parte da perda de consumo esperada com a nova mistura. O etanol tem poder calorífico menor que o da gasolina, e a autonomia dos veículos tende a sofrer leve redução. Nos carros modernos, o gerenciamento eletrônico pode ajustar o funcionamento do motor ao detectar um combustível com maior octanagem.
Testes e chegada aos postos
A gasolina E35 está prevista na Lei do Combustível do Futuro, de número 14.993/24. A legislação permite elevar o limite de etanol quando houver comprovação de viabilidade técnica.
O cronograma foi aprovado pelo Comitê Técnico Permanente do Combustível do Futuro (CTP-CF), mas depende da publicação de uma Portaria para começar. Depois, o Conselho Nacional de Pesquisa Energética (CNPE) deverá aprovar a nova mistura. Até agora, não há data para a venda da E35 nos postos.
A mudança anterior também é contestada por entidades do setor automotivo. A Associação Nacional das Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e a Associação Nacional das Importadoras de Veículos (Abeifa) questionam o aumento para 32% de etanol, adotado a partir de 1° de agosto.
As associações dizem que faltam estudos técnicos específicos e conclusivos, principalmente para veículos movidos somente a gasolina. Segundo as entidades, as avaliações não teriam incluído durabilidade, emissões, autonomia e funcionamento da frota.
Em julho, o Ministério Público Federal (MPF) pediu liminarmente a suspensão da decisão que elevou o teor de etanol para 32%. O órgão afirma que não existe uma análise de impacto capaz de demonstrar cientificamente a viabilidade da medida para a frota nacional.







