MADRI — O despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, provocou novos protestos contra a crise imobiliária na Espanha. Manifestantes passaram a noite acampados na praça Puerta del Sol e continuaram mobilizados no domingo (27) e nesta segunda-feira (28), com a participação de pessoas de várias gerações de uma mesma família.
No sábado (26), dezenas de milhares de pessoas marcharam por Madri. O grupo protestou contra a retirada de Abascal de um apartamento no bairro do Retiro, onde ela vivia havia mais de sete décadas. Nesta segunda-feira, os advogados da idosa informaram que chegaram a um acordo com a empresa dona do imóvel. Com isso, ela poderá voltar a morar no apartamento.
Os manifestantes pedem medidas mais rígidas de proteção aos inquilinos, ações contra fraudes e a proibição de despejos quando não houver outra moradia disponível. Parte dos participantes permaneceu na praça depois da marcha de sábado e montou barracas no local.
“A situação habitacional é insustentável”, disse Natalia Navarro, atriz de 27 anos que participou do acampamento. A porta-voz do Sindicato dos Inquilinos de Madri, Alicia del Río, afirmou que a mobilização continuará até que o governo aprove novas regras, incluindo contratos de aluguel por tempo indeterminado.
O caso de Maricarmen Abascal
Em 23 de setembro, Abascal foi retirada do apartamento em uma maca e levada para uma ambulância. A cena ocorreu enquanto apoiadores tentavam impedir o despejo e gritavam o nome dela. Depois, em um vídeo gravado do hospital, a idosa disse: “Não consegui defender minha casa, mas lutei para que outras pessoas aprendam a lutar pelo que é delas”.
As imagens se espalharam pela Espanha e alimentaram críticas às autoridades e às empresas de investimento imobiliário acusadas de pressionar moradores a deixar suas casas por causa dos preços. Simón de la Riva, professor de 43 anos que participou dos protestos, afirmou que o caso de Abascal foi o fator que desencadeou a mobilização social.
O pai de Abascal alugou o apartamento pela primeira vez em 1956. Depois da morte dos pais, ela continuou como inquilina sob o regime de controle de aluguéis. O prédio mudou de proprietário em 2018, e ela recebeu uma oferta para comprar o imóvel, mas não tinha condições financeiras para isso, segundo o Sindicato dos Inquilinos de Madri.
A Urbagestión, fundo de investimento que depois comprou o apartamento, elevou o aluguel mensal de 500 euros para 2 650 euros. Mais tarde, reduziu o valor para 1.650 euros, quantia que ainda não cabia no orçamento da aposentada.
Pressão sobre o governo espanhol
O primeiro-ministro Pedro Sánchez afirmou, durante um comício do Partido Socialista em Madri, que o governo trabalhava em um Decreto Real sobre habitação. A previsão era que novas medidas fossem anunciadas na reunião semanal do gabinete desta terça-feira (29).
Os manifestantes, porém, disseram que continuarão pressionando o governo. O projeto de uma nova lei não tem aprovação garantida no Parlamento, onde Sánchez não conta com maioria. A mobilização também chegou a Barcelona, onde um grupo bloqueou parte da Avenida Diagonal durante a participação do primeiro-ministro em uma cerimônia.
Faixas com a mensagem “Decreto Maricarmen já” foram exibidas nos atos. Os participantes também relataram dificuldades para encontrar moradia diante do aumento dos preços e da escassez de imóveis.
O Banco da Espanha estimou que o país tinha uma falta de cerca de 550 mil moradias no ano passado. Madri, Barcelona e Valência concentravam uma parcela significativa desse total. Em dez anos, o preço médio do metro quadrado do aluguel dobrou e chegou a 15,1 euros/m² em agosto, segundo o portal imobiliário Idealista. Na compra, o valor alcançou 2 355 euros, alta de mais de 50% no mesmo período, conforme dados oficiais.
A Espanha tem menos de 2% do parque habitacional formado por moradias públicas subsidiadas para aluguel, enquanto a média da União Europeia é de 8%. As manifestações na Puerta del Sol também lembraram os protestos iniciados em 15 de maio de 2011, quando integrantes do movimento dos indignados acamparam durante 28 dias.








