A baixa presença de demência entre as comunidades indígenas Tsimané e Mosetén, na Amazônia boliviana, pode estar parcialmente ligada à morte rápida de pessoas que desenvolvem a condição. É o que indica um estudo com 730 adultos, cuja idade média era de 67,3 anos, acompanhados por cinco anos.
No Brasil, cerca de 8,5% da população com 60 anos ou mais convive com algum tipo de demência — aproximadamente 2,5 milhões de pessoas. Nas comunidades analisadas, a taxa fica entre 1% a 2% em alguns locais. Durante o acompanhamento, foram registrados 22 novos casos, com incidência geral de 7,4 casos por 1.000 pessoas-ano. O índice ficou abaixo dos observados em populações da América do Norte e do norte da Europa.
O estudo foi publicado na revista Alzheimer’s & Dementia: The Journal of the Alzheimer’s Association. Entre os participantes, pessoas com demência apresentaram risco de morte seis vezes maior que aquelas com cognição normal. Nos Estados Unidos, o tempo de sobrevida depois do diagnóstico é, em média, de duas a três vezes menor.
Ben Trumble, professor da Escola de Evolução Humana e Mudança Social da Universidade Estadual do Arizona e coautor da pesquisa, afirmou que a demência pode comprometer rapidamente a independência necessária para cultivar, coletar ou caçar alimentos nessas comunidades. A causa da expectativa de vida reduzida ainda não foi esclarecida. Os pesquisadores suspeitam que ela possa estar relacionada ao estilo de vida em constante movimento na selva.
Análises preliminares de sangue encontraram níveis elevados de proteínas da cadeia leve de neurofilamentos, associadas à neurodegeneração. Por outro lado, não foram identificadas as proteínas anormais normalmente ligadas à doença de Alzheimer, como amiloide ou tau fosforilada.
Margaret Gatz, professora de psicologia e gerontologia da Universidade do Sul da Califórnia e principal autora do estudo, disse que, na maioria dos Tsimané com comprometimento cognitivo ou demência, o padrão de atrofia cerebral não é típico do Alzheimer. Segundo ela, as alterações observadas indicam possível contribuição de problemas vasculares.
A variante genética APOE4, conhecida como fator de risco para Alzheimer, também apareceu associada à demência no estudo. Os pesquisadores afirmam, porém, que ela não explica sozinha a forma como a condição se manifesta nessas comunidades. A próxima etapa será avaliar a influência de genética, estilo de vida, dieta, interação social, atividade física e exposição imunológica.








