SÃO PAULO — Um estudo com dados do serviço público de São Paulo identificou que 79% dos casos de câncer de pulmão foram diagnosticados nos estágios III ou IV, considerados os mais avançados da doença. A análise avaliou 16.038 pacientes diagnosticados entre 2000 e 2016 em todo o estado, com acompanhamento encerrado em 2022.
O levantamento foi publicado no Journal of Thoracic Disease. Entre os pacientes analisados, 49,8% receberam o diagnóstico no estágio IV e 29,1% no estágio III. Já os estágios iniciais concentraram parcelas menores: 11,6% dos casos estavam no estágio I e 6,8% no estágio II.
Diagnóstico e fatores de risco
Fernando Conrado Abrão, cirurgião torácico do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Oswaldo Cruz e coordenador do estudo, afirmou que identificar a doença cedo é importante para o prognóstico. Segundo ele, somente 18% dos pacientes chegam ao diagnóstico nos estágios I e II, quando existe possibilidade de cura com o tratamento.
“Como a maioria dos cânceres, essa é uma doença silenciosa”, disse Fernando. De acordo com o especialista, quando os sinais aparecem, o quadro pode já estar mais avançado. Ele também citou o acesso aos serviços de saúde como um fator que pode contribuir para a demora, embora o estudo não tenha investigado esse aspecto.
O tabagismo é apontado como um dos principais fatores de risco. Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 90% das mortes por câncer de pulmão ocorrem em pacientes com histórico de consumo de tabaco. Fernando recomendou que fumantes procurem ajuda para parar e afirmou que há atendimento com profissionais desde o clínico geral até o pneumologista.
O especialista também disse que o rastreamento pode ser considerado individualmente, quando houver indicação do cirurgião torácico. De acordo com ele, podem se beneficiar dessa avaliação pessoas acima de 50 anos que fumam há mais de 20 anos. Fernando planeja realizar uma análise semelhante com dados de todo o país.
Dados sobre o tabagismo
Segundo o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico do Ministério da Saúde (Vigitel), a parcela da população que fumava 20 cigarros ou mais por dia caiu de 4,6% em 2006 para 1,9% em 2023.
Entre usuários de cigarros eletrônicos, o percentual variou de 2,3% em 2019 para 2,1% em 2023, anos em que esse consumo foi incluído na pesquisa.
Em nota, o Governo de São Paulo informou ter registrado 23.132 internações por neoplasia de pulmão entre 2023 e 2026. A administração estadual afirmou que ampliou ações de prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer, com foco também no controle do tabagismo.
A Política Estadual de Controle do Tabagismo reúne medidas de prevenção, vigilância e redução do uso de produtos de tabaco e da dependência de nicotina. Segundo a Secretaria de Saúde, mais de 1 milhão de pessoas foram atendidas pela política. O aplicativo do Poupatempo oferece o serviço Vida Sem Nicotina, que permite fazer o Teste de Fagerström e consultar locais da rede pública para tratamento.








