FORTALEZA — Uma loja de artigos religiosos católicos foi atacada com um coquetel molotov na madrugada de 9 de setembro, no centro da capital cearense. Um cartaz com a frase “Se reabrir, todos morrem” foi colado no local. Na mesma noite, outros estabelecimentos católicos e um espaço de umbanda tiveram as fachadas incendiadas.
Os ataques são investigados pela Polícia Civil. No dia seguinte, o padre Josileudo Queiroz, da Igreja de São José Operário de Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, classificou os episódios como crime de intolerância religiosa.
“Não é ateu, porque há muitas religiões, há muitas expressões de fé”, afirmou o padre, ao explicar que o Brasil é um país laico, sem religião oficial.
Outros ataques e investigação federal
Os casos de Fortaleza ocorreram em meio a outros ataques contra símbolos católicos. Em Londrina (PR), a cabeça de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida foi arrancada de frente de uma loja de artigos religiosos. Em Salvador, uma imagem de Nossa Senhora das Graças foi quebrada. Depois, a imagem de Santa Dulce dos Pobres também foi destruída.
Na última quarta-feira (30), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal investigue uma aparente disseminação de ataques contra imagens religiosas católicas pelo país.
Os episódios ocorreram antes de a discussão sobre o título de padroeira do Brasil atribuído a Nossa Senhora Aparecida entrar na disputa eleitoral. Na última semana, circularam nas redes sociais publicações que atribuíam ao candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) a intenção de retirar esse título da santa.
O candidato acionou a Justiça Eleitoral e o STF para remover as mensagens. As decisões judiciais alternaram entre a retirada das publicações, sob justificativa de disseminação de notícia falsa, e a liberação do conteúdo, com base na preservação da liberdade de expressão. O Tribunal Superior Eleitoral formou maioria para manter as postagens fora do ar.
Denúncias de intolerância religiosa
Dados do Disque 100 registraram 1.252 denúncias com pelo menos uma violação relacionada à liberdade de crença ou à intolerância religiosa entre janeiro e junho de 2026.
Candomblé e umbanda aparecem historicamente como as religiões mais atingidas, segundo o censo do IBGE, embora representem cerca de 1% da população brasileira. No período, foram registradas 270 denúncias, aumento de mais de 40% em relação ao mesmo intervalo de 2025, quando houve 192 notificações.
Entre os católicos, os registros passaram de 15 para 34 na comparação entre os primeiros semestres, crescimento superior a 100%.
Durante a Semana Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, realizada em janeiro no Rio de Janeiro, Rudelmar Faria, secretário-geral da ACT Alliance, disse que a exclusão pela religião também é usada como estratégia política em outros países. A organização reúne igrejas e entidades baseadas na fé e atua em 140 países.
O defensor público do Ceará Igor Barreto afirmou que os crimes de intolerância religiosa são insuscetíveis de fiança e indulto, além de imprescritíveis. No Brasil, a pena para prática, indução ou incitação varia de um a 5 anos de reclusão e multa.








