A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) investiga 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA-NA) em pessoas que usavam medicamentos à base de semaglutida ou tirzepatida. A doença pode causar perda súbita, indolor e permanente da visão, geralmente em apenas um dos olhos.
Os registros não confirmam que os medicamentos provocaram o problema. A Anvisa informou que a análise considera a confirmação do diagnóstico, o intervalo entre o início do tratamento e os sintomas, as condições de saúde do paciente, outros remédios usados e possíveis causas alternativas.
Quais medicamentos aparecem nas notificações
Dos 13 casos suspeitos, 5 envolvem Ozempic, 5 estão relacionados ao Wegovy, 2 ao Rybelsus e 1 ao Mounjaro. Ao todo, 12 notificações estão ligadas à semaglutida e uma à tirzepatida.
A NOIA-NA ocorre quando há redução do fluxo de sangue para uma parte do nervo óptico. Esse nervo leva ao cérebro as informações captadas pela retina. Segundo a oftalmologista Camila Ventura, do Hospital de Olhos de Pernambuco (HOPE), a doença pode causar perda visual sem que exista, até o momento, um tratamento eficaz para recuperar a visão perdida.
O cuidado envolve reduzir fatores de risco para aterosclerose e controlar a pressão arterial e o diabetes. Também podem aumentar a predisposição à doença o diabetes tipo 2, a hipertensão arterial, o colesterol alto, a apneia obstrutiva do sono e a idade avançada, além de características anatômicas do olho.
O que já se sabe sobre o risco
Ainda não há comprovação de que semaglutida e tirzepatida aumentem a ocorrência da NOIA-NA. Um estudo publicado em 2024 na JAMA Ophthalmology analisou mais de 16 mil prontuários e apontou risco de até quatro vezes maior entre pacientes que receberam semaglutida, em comparação com pessoas que usaram outros medicamentos para diabetes tipo 2 e obesidade. Os autores ressaltaram que são necessárias novas pesquisas para avaliar se existe relação de causa e efeito.
Em julho do ano passado, a Anvisa alertou que a NOIA-NA poderia ser um evento adverso muito raro associado à semaglutida. Até então, o sistema VigiMed havia registrado 52 notificações de suspeitas de distúrbios oculares relacionados ao princípio ativo. A Anvisa também informou a inclusão, nas bulas, do risco de perda permanente da visão relacionado à doença.
As bulas consideram a ocorrência da NOIA-NA muito rara, com frequência de até um caso para cada 10 mil usuários.
Orientação para quem usa os medicamentos
A recomendação da Anvisa e das fabricantes é procurar atendimento médico imediatamente diante de perda súbita ou piora rápida da visão. Camila Ventura também orienta acompanhamento com oftalmologista, porque as canetas podem acelerar outros problemas oculares, como a retinopatia diabética.
A Novo Nordisk, fabricante dos medicamentos à base de semaglutida, afirmou que a segurança dos pacientes é prioridade e que colabora com autoridades de saúde e órgãos reguladores. A empresa citou exposição pós-comercialização superior a 58 milhões de pacientes-ano e disse que análises clínicas não identificaram aumento da incidência de NOIA-NA entre os pacientes que receberam semaglutida.
A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, afirmou que monitora e avalia informações de segurança relacionadas aos medicamentos e mantém discussões com autoridades regulatórias.
Semaglutida e tirzepatida devem ser usadas com acompanhamento médico, conforme as indicações aprovadas nas bulas e as orientações do profissional responsável pelo tratamento.








