A terapia celular CAR-T trouxe a possibilidade de remissão sem medicação para alguns pacientes com lúpus, esclerose sistêmica e miopatia inflamatória. Mas o tratamento ainda é experimental para doenças autoimunes no Brasil e na maior parte do mundo, com acesso restrito a pesquisas clínicas, critérios rígidos e vagas limitadas.
A técnica usa os próprios linfócitos T do paciente. Essas células são retiradas, modificadas em laboratório para reconhecer os linfócitos B — células que podem produzir anticorpos contra o próprio organismo — e devolvidas em uma única infusão. Depois, elas se multiplicam, alcançam os tecidos e eliminam essas células. A expectativa é que o sistema imune volte a produzir linfócitos B sem a memória autoimune anterior.
O que já foi observado
Um dos casos que abriram caminho foi o de Vu-Thi Thu-Thao, diagnosticada com lúpus aos 16 anos. Depois de tratamentos que levaram a remissões temporárias e recaídas, ela recebeu uma infusão de CAR-T em 2020, na Universidade de Erlangen, na Alemanha. Teve febre e fadiga nos dias seguintes. Cinco anos depois, seguia em remissão, sem medicação, e trabalhava na mesma clínica onde foi tratada.
Também foram divulgadas séries com pacientes de lúpus, esclerose sistêmica e miopatia inflamatória que não responderam a vários imunossupressores. Ainda assim, são dezenas de pacientes no mundo, acompanhados por poucos anos. Os seguimentos mais longos chegam a cinco anos, período considerado insuficiente para afirmar que existe cura estabelecida para uma população.
O tratamento exige estrutura e pode causar efeitos adversos
Antes da infusão, o paciente passa por quimioterapia em dose baixa, chamada linfodepleção. O objetivo é abrir espaço no sistema imune. Depois, é necessário permanecer internado.
A complicação mais comum é a síndrome de liberação de citocinas, que pode provocar febre alta e queda de pressão. Em doenças autoimunes, ela costuma ser mais leve do que em câncer, mas ainda pode ocorrer. Também existem riscos de alterações neurológicas transitórias, redução prolongada das células do sangue e meses com a defesa imunológica diminuída, período em que as infecções são a principal preocupação.
Por isso, a aplicação depende de centro preparado, equipe de hematologia com experiência em terapia celular, estrutura para coleta e processamento, leito de internação e protocolo para lidar com toxicidades.
Quem pode ser avaliado
Os critérios incluem doença ativa e grave, comprovação objetiva, falha documentada de tratamentos específicos, ausência de infecção ativa e condições clínicas para suportar a linfodepleção e a internação.
A terapia não desfaz danos permanentes. Perda irreversível da função dos rins, fibrose pulmonar ou destruição de uma articulação não são revertidas pelo tratamento. Também não costuma ser indicada para quem tem apenas sequelas ou para quem mantém a doença controlada com a terapia atual, já que não se troca um controle estável por um procedimento com internação e riscos.
Na prática, o grupo elegível é pequeno: pessoas com doença grave, ativa e resistente aos tratamentos, mas que ainda tenham os órgãos preservados.
A durabilidade dos resultados continua sendo uma questão em aberto. Recaídas podem ocorrer, e o custo ainda está em discussão.
Para quem tem uma doença reumatológica, a orientação é manter o tratamento atual e reunir registros de atividade da doença, exames de função dos órgãos e histórico dos medicamentos usados e trocados. A avaliação de elegibilidade depende dessa documentação.
A pergunta ao reumatologista não precisa ser apenas se é possível fazer CAR-T. Também pode abordar se o caso está caminhando para uma situação em que a terapia seria discutida e quais medidas atuais ajudam a preservar essa possibilidade.







