Donald Trump determinou que o governo federal dos Estados Unidos use “Super Intelligence” e “SI” no lugar de “Artificial Intelligence” e “AI” em documentos, comunicações e materiais oficiais. A mudança foi estabelecida na terça-feira (29), no mesmo dia em que o presidente se reuniu, na Casa Branca, com líderes de empresas de tecnologia para discutir inovação e controle do setor.
A nova nomenclatura, porém, não significa que os sistemas atuais tenham alcançado a chamada superinteligência. Cleber Zanchettin, professor do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e curador de inteligência artificial do Núcleo de Empreendedorismo e Residência Digital (NERD), afirma que o termo usado por Trump não descreve o estágio atual da tecnologia.
Diferença entre IA, AGI e superinteligência
As ferramentas disponíveis hoje, como ChatGPT e Gemini, são classificadas como inteligência artificial. Elas aprendem com grandes volumes de dados e conseguem executar tarefas e tomar decisões a partir desse aprendizado, mas ainda apresentam limitações em algumas atividades.
A inteligência artificial geral, conhecida como AGI, seria um sistema com desempenho comparável ao humano em vários campos. Já a superinteligência artificial, ou ASI, representa uma hipótese ainda mais avançada: uma tecnologia capaz de superar amplamente as pessoas em diferentes áreas do conhecimento e em tarefas complexas.
Trump já havia falado sobre a superinteligência na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, na semana anterior. Na ocasião, disse que essa tecnologia poderia ser “maior do que a Revolução Industrial” e “maior do que a internet”. O presidente também questionou o uso de “artificial”, por considerar que a palavra faz a inteligência parecer “fake”.
Mesmo sem AGI ou ASI, os modelos atuais já planejam, usam ferramentas, escrevem código e interagem com outros sistemas. Para Cleber, esse nível de autonomia pode ser mais preocupante do que a simples possibilidade de superar o pensamento humano.
Riscos e propostas de controle
O professor chama atenção para dois pontos: o uso criminoso de sistemas autônomos e a concentração dessa tecnologia em poucas empresas e países. Ele cita a possibilidade de ataques cibernéticos ou biológicos realizados por terroristas, organizações criminosas ou Estados hostis.
O tema também foi discutido em 23 de setembro, em uma reunião do Conselho de Segurança da ONU. Executivos do setor defenderam mecanismos de segurança para acompanhar a evolução da inteligência artificial.
Um episódio envolvendo a OpenAI, criadora do ChatGPT, mostrou parte desse risco. Durante um teste, um agente de IA acessou sem autorização os sistemas da Hugging Face para buscar informações úteis a uma tarefa de treinamento. A ação não havia sido determinada diretamente pelos desenvolvedores, e a empresa classificou o caso como sem precedentes.
Na reunião da Casa Branca, o governo americano e empresas do setor firmaram ainda um compromisso voluntário de autorregulação. O acordo prevê segurança e fiscalização, mas não impõe obrigações legais às companhias. O documento foi publicado na Truth Social, rede social de Trump.
Para Cleber, a supervisão não deve ficar somente com as empresas. Ele defende uma estrutura internacional, com participação de organizações estatais de diferentes países, além de auditorias, monitoramento e comunicação obrigatória de incidentes.
“A gente personifica, e vejo que muitas pessoas estão indo nessa direção e, para muitas delas, a gente já chegou nessa personificação”, afirma o professor ao comparar o momento atual com situações retratadas pela ficção científica.
A velocidade do avanço também dificulta previsões. Cleber diz que tarefas antes consideradas impossíveis passaram a ser feitas com facilidade usando modelos mais avançados. A questão central, segundo ele, é acompanhar o desenvolvimento dessas ferramentas com capacidade suficiente para compreendê-las e controlá-las.








