Guilherme Derrite disputa uma vaga no Senado por São Paulo em 2026 pelo Progressistas (PP), depois de construir sua trajetória política com um discurso de endurecimento da segurança pública. Ex-secretário estadual da área, policial militar da reserva e deputado federal, ele também é associado ao bolsonarismo e ao campo conservador.
A carreira de Derrite foi marcada por controvérsias sobre mortes em ações policiais, pelas operações na Baixada Santista, pelo assassinato do empresário Antônio Vinícius Lopes Gritzbach e pela atuação como relator da Lei Antifacção.
Da Polícia Militar à política
Nascido em Sorocaba, em 10 de outubro de 1984, Derrite entrou na Academia de Polícia Militar do Barro Branco em 2003. Estudou Ciências Sociais e Segurança Pública na instituição, formou-se em Direito e concluiu pós-graduação em Ciências Jurídicas pela Universidade Cruzeiro do Sul.
Na Polícia Militar, passou pelo 14º Batalhão e pela Rota. Chegou à patente de capitão e foi para a reserva em 2018, quando iniciou a carreira política.
Durante sua passagem pela Rota, seis inquéritos trataram de dez mortes decorrentes de intervenções policiais em operações realizadas ao longo de três anos e nove meses. Um sétimo inquérito mencionou uma ação que terminou com seis mortos e envolveu policiais presos por tortura e assassinato. Derrite não foi denunciado criminalmente nesses casos.
Em entrevista, afirmou que deixou a Rota porque havia “matado muito ladrão”. Em 2018, foi eleito deputado federal pelo PP com 119.034 votos. Em 2022, reelegeu-se pelo PL, partido do então presidente Jair Bolsonaro, com 239.772 votos.
Gestão na Segurança Pública
Derrite comandou a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo durante quase todo o primeiro mandato de Tarcísio de Freitas. Nesse período, o número de mortes provocadas por policiais militares em serviço subiu de 262, em 2022, para 357, em 2023, e 653, em 2024, segundo dados do Ministério Público de São Paulo compilados pelo Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp).
No ano seguinte, foram registradas 672 mortes em intervenções de policiais militares em serviço. Considerando também outras situações e agentes em serviço ou fora dele, o estado contabilizou 835 mortes decorrentes de intervenção policial em 2024, contra 542 em 2023, alta de 65%.
As Operações Escudo e Verão começaram em julho de 2023, depois do assassinato do soldado Patrick Bastos Reis, integrante da Rota, no Guarujá. As ações resultaram oficialmente em 84 mortes de civis e três mortes de policiais militares.
Relatórios da Defensoria Pública paulista, de grupos de pesquisa e do Instituto Vladimir Herzog reuniram relatos de abusos, tortura, invasões de domicílios e mortes. Também foram registradas denúncias de alteração de cenas de crime e obstrução de câmeras corporais por policiais militares. Em outubro de 2025, Derrite classificou as denúncias como “mentirosas” e “infundadas”.
O caso Gritzbach
Gritzbach era investigado por crimes relacionados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e havia firmado acordo de colaboração premiada com o Ministério Público. Em sua delação, citou integrantes da facção e relatou suspeitas de corrupção e extorsão envolvendo policiais civis.
O empresário foi ouvido pela Corregedoria da Polícia Civil em 31 de outubro de 2024 e morto oito dias depois, no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Policiais militares faziam parte de sua segurança particular, e Derrite afirmou que eles já eram investigados havia cerca de um mês.
Em 2025, o Ministério Público denunciou 18 policiais militares por crimes relacionados ao caso. Três foram acusados de participação direta na execução, 14 de integrar a escolta pessoal de Gritzbach e um de falsidade ideológica e prevaricação.
A divulgação do nome e da fotografia de Kauê do Amaral Coelho, apontado como responsável por monitorar Gritzbach e avisar os executores, também gerou questionamentos. A defesa de Derrite afirmou que a divulgação ocorreu depois do cumprimento de mandados de busca e apreensão.
O julgamento dos três policiais acusados de participação direta começou em junho de 2026, mas foi anulado após os advogados dos réus deixarem o plenário durante um desentendimento com a promotoria. Um novo julgamento foi marcado para fevereiro de 2027.
Relatoria da Lei Antifacção
De volta à Câmara, Derrite foi relator do Projeto de Lei 5.582/2025, enviado originalmente pelo governo federal e transformado no Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, a Lei nº 15.358/2026.
A proposta criou novos tipos penais, aumentou penas para integrantes e líderes de facções e ampliou mecanismos de bloqueio e perda de patrimônio. Uma mudança apresentada por Derrite previa que a atuação da Polícia Federal em determinadas investigações dependeria de provocação ou solicitação das autoridades estaduais. A corporação afirmou que a medida poderia enfraquecer sua autonomia e prejudicar apurações de alcance interestadual e nacional.
Também houve críticas às alterações relacionadas ao Ministério Público, que poderiam privilegiar o inquérito policial como principal instrumento de investigação.
Saída do governo paulista e candidatura
Em 2024, Tarcísio de Freitas exonerou Derrite temporariamente para que ele reassumisse o mandato e relatasse o projeto que extinguia as saídas temporárias de presos. A proposta foi aprovada pelo Congresso após a derrubada do veto presidencial.
Em dezembro de 2025, Derrite deixou definitivamente a Secretaria da Segurança Pública e voltou à Câmara. Em 2026, deixou o PL, retornou ao Progressistas e lançou sua candidatura ao Senado no contexto da federação União Progressista, com apoio de Tarcísio de Freitas e alinhamento à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
Sua atuação política permanece concentrada na pauta de segurança pública. Em 2026, ele integrou a comissão especial da Câmara que analisou a redução da maioridade penal e defendeu a medida com o argumento de que adolescentes seriam usados por organizações criminosas.







