A campanha de Flávio Bolsonaro tenta apresentar o senador como uma versão mais moderada do pai, Jair Bolsonaro, enquanto ele se consolida como principal nome do eleitorado bolsonarista e antipetista para a disputa presidencial. A estratégia, porém, passou a enfrentar novas cobranças após a divulgação de conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso e negociando um acordo de delação premiada.
Segundo informações atribuídas ao Intercept Brasil, Vorcaro teria repassado ao menos R$ 61 milhões para a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro. O acordo de financiamento chegaria a R$ 134 milhões, e Flávio teria procurado o banqueiro para cobrar a liberação do restante dos recursos. O senador nega irregularidades e afirma que buscava patrocínio privado para uma obra sobre a história do pai.
A proximidade com Vorcaro se soma a acusações antigas relacionadas ao período em que Flávio foi deputado estadual no Rio de Janeiro. Entre elas estão suspeitas de rachadinha, desvio de parte dos salários de servidores, compra de imóveis com dinheiro vivo e vínculos com o miliciano Adriano da Nóbrega. Flávio nega as acusações e afirma que foi alvo de perseguição política.
A imagem de moderação
Nas redes sociais, Flávio tem destacado diferenças em relação ao pai. Em um vídeo compartilhado em abril, sua esposa, Fernanda, disse que o senador era um Bolsonaro moderado e afirmou ter contribuído para essa mudança. No mesmo conteúdo, ele ressaltou que tomou vacina, em contraste com a postura de Jair Bolsonaro durante a pandemia de covid-19.
A campanha também publicou mensagens sobre a importância do Carnaval, os feminicídios, a falta de creches e a defesa dos direitos das mulheres. A estratégia procura alcançar jovens, mulheres e a classe média, além de manter o apoio herdado do pai.
Para Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel, o episódio envolvendo Vorcaro atrapalha o esforço para reduzir a rejeição associada ao sobrenome Bolsonaro e às denúncias de corrupção. Na avaliação dele, Flávio tenta se apresentar como um gestor diferente do pai, embora não tenha experiência de gestão.
O PT, por outro lado, afirma que não existe um Bolsonaro moderado. Um vídeo divulgado pelo deputado Lindbergh Farias associa Flávio à extrema-direita e cita declarações do senador sobre a possibilidade de uso da força para garantir anistia ou indulto a Jair Bolsonaro, caso o Supremo Tribunal Federal considere a medida inconstitucional.
Pesquisas e acusações antigas
Levantamentos internos da pré-campanha indicaram crescimento de Flávio entre jovens, mulheres e integrantes da classe média. Em pesquisas do instituto Quaest, na comparação entre dezembro e maio, ele chegou a 45% entre eleitores de 16 a 34 anos, contra 38% de Luiz Inácio Lula da Silva. Entre pessoas com renda entre 2 e 5 salários-mínimos, marcou 44%, ante 40% do atual presidente. Entre as mulheres, passou de 31% para 36%, ainda atrás de Lula, com 45%.
A investigação sobre o antigo gabinete de Flávio começou após o Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontar movimentações incompatíveis com o salário de Fabrício Queiroz, chefe de gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Em 2020, o Ministério Público acusou Queiroz de operar um esquema de recolhimento de parte dos salários dos funcionários.
De acordo com a denúncia, 12 funcionários fantasmas receberam R$ 6,1 milhões. O Ministério Público afirmou que ao menos R$ 2 milhões foram para a conta de Queiroz e outros R$ 2 milhões foram disponibilizados por meio de saques em espécie. O caso foi paralisado por decisões judiciais, e o Ministério Público do Rio de Janeiro informou que ele foi encerrado após decisão do ministro Gilmar Mendes em fevereiro de 2025.
Flávio também foi questionado sobre homenagens a Adriano da Nóbrega, feitas em 2003 e 2005, e sobre a permanência da mãe e da então esposa do miliciano em seu gabinete. O senador afirma que não conhecia as atividades criminosas atribuídas a ele e que não defende milícias.
Para a senadora Damares Alves, Flávio não tenta apenas parecer moderado: ele teria esse perfil. Já críticos da direita, como a vereadora Janaína Paschoal, dizem que o senador não é moderado e questionam sua capacidade de representar o campo conservador.








