O trânsito pode mudar o comportamento das pessoas em poucos segundos. Uma fechada, uma buzina ou um palavrão são suficientes para transformar alguém aparentemente tranquilo em uma pessoa disposta a discutir com um desconhecido, segundo especialistas e condutores ouvidos durante a Semana Nacional do Trânsito.
Para a psicóloga Juliana de Barros Guimarães, presidente da Associação Brasileira de Psicologia de Tráfego em Pernambuco (ABRAPSIT-PE), o trânsito reúne pessoas que não se conhecem, com objetivos diferentes e pouca disposição para prestar atenção umas nas outras. Ela defende que a avaliação psicológica dos motoristas seja feita com mais frequência.
Atualmente, esse tipo de avaliação ocorre na primeira habilitação e, no caso de motoristas profissionais, a cada renovação. A psicóloga afirma que a medida poderia ser obrigatória para todos os condutores em cada renovação da carteira.
A forma de reagir também muda conforme o veículo. O educador físico Matheus Leandro, de 22 anos, habilitado para carros e motocicletas, diz que fica mais tenso quando está na moto. Ele já sofreu uma queda e precisou de três meses para se recuperar das escoriações.
Depois da experiência, Matheus afirma que passou a evitar confrontos com outros motoristas. A preocupação, segundo ele, é não saber quem está do outro lado e preservar a própria vida.
O motorista de aplicativo Cléber Araújo, de 32 anos, conta que procura manter a calma quando está com passageiros. Em uma situação recente, foi xingado por um taxista depois de fazer uma manobra para deixar uma passageira. Para evitar que o episódio afetasse a corrida, ele tentou conversar e fazer a passageira rir. Depois que ela saiu, porém, gritou e soltou palavrões dentro do carro.
“Não sei quem está do outro lado”, afirmou Matheus ao explicar por que tenta não discutir no trânsito.
Congestionamento e segurança
O levantamento TomTom Traffic Index aponta que Recife foi a capital brasileira com maior congestionamento em 2025, com índice médio de 64,7%. Na América do Sul, o Brasil ficou na quarta posição entre os países mais congestionados.
O doutor em Engenharia Civil, professor e pesquisador de Engenharia de Tráfego Lyneker Souza citou medidas que podem ajudar na mobilidade, como sistemas de monitoramento para aplicar a legislação, melhoria do sincronismo dos semáforos, implantação de faixas reversíveis em locais com fluxo pendular e uso de simulações antes de intervenções nas vias.
Ele também destacou a necessidade de desobstruir rapidamente as ruas em casos de veículos quebrados, colisões e outras ocorrências que prejudiquem a circulação.
Em 2024, o Brasil registrou 37.150 mortes no trânsito, alta de 6,5% em relação ao ano anterior. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) indicam que o aumento do uso de motocicletas contribuiu para o resultado. As motos corresponderam a 41,6% das fatalidades.
O Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), criado em 2018, orienta ações para reduzir mortes e lesões e segue a Nova Década de Segurança no Trânsito da Organização das Nações Unidas (ONU).
Ações educativas
A Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) programou atividades gratuitas de segurança viária ao longo de setembro. A agenda inclui palestras de agentes de trânsito em empresas e ações para motociclistas que trabalham com transporte e entregas por aplicativos.
No Departamento Estadual de Trânsito de Pernambuco (Detran-PE), a Semana Nacional do Trânsito tem como tema “Desacelerar é valorizar a vida” e inclui uma caminhada ecológica na segunda-feira, além de ações educativas.
Rachel Curvelo, gerente de Produção Pedagógica, Eventos e Campanhas do Detran, reforçou a importância de respeitar a sinalização e os limites de velocidade, usar o cinto de segurança, não dirigir após consumir bebida alcoólica e evitar o celular e os fones de ouvido durante a condução.








